Rússia e Ucrânia trocam ataques, e guerra entra em nova fase

Nesta semana, Kiev intensificou os ataques contra a principal ponte que liga a área da cidade ao resto da província, separada pelo rio Dnieper

 Após uma pausa tática relativa, a Guerra da Ucrânia entrou em sua terceira grande fase. Kiev ampliou os movimentos de sua primeira contraofensiva, enquanto Moscou retomou o avanço no leste e intensificou bastante seus ataques com mísseis nesta quinta (28), 155º dia da invasão russa do vizinho.

Não se via tanta dinâmica no campo de batalha desde que a Rússia encerrou a conquista de Lugansk, uma das duas províncias que compõem o Donbass (leste russófono do país), há pouco mais de três semanas. De lá para cá, obviamente a guerra seguiu, mas com ações pontuais.

Agora, a Ucrânia trabalha para isolar as forças russas em Kherson, a primeira grande cidade conquistada por Moscou, logo no começo da guerra. Porto ao sul do país, ela é a capital da província homônima, cujo controle russo estabeleceu uma ponte entre o Donbass e a Crimeia, anexada por Vladimir Putin em 2014.

Nesta semana, Kiev intensificou os ataques contra a principal ponte que liga a área da cidade ao resto da província, separada pelo rio Dnieper. Aqui entra ao mesmo tempo um dilema estratégico e uma limitação tática.

A ponte em questão, Antonivski, tem 1 km de extensão. Ela teve sua pista danificada com o uso de artilharia de longo alcance ocidental à disposição dos ucranianos –pela precisão dos ataques, provavelmente munição com guiagem de GPS Excalibur, disparada por obuseiros, e não os famosos mísseis do sistema Himars.

Os russos dizem ter estabelecido pontões e uma travessia com balsa como alternativa, mas estão vulneráveis em Kherson, sob risco de ficarem isolados. Perder a cidade seria uma derrota estratégica importante para a pretensão agora explícita de Moscou de conquistar o sul do vizinho.

Como de costume na guerra informativa, fontes ocidentais dão a situação russa como perdida. O Ministério da Defesa do Reino Unido afirma que Moscou perdeu o ímpeto no sul de forma definitiva, o que por ora é exagero.

Entra então o dilema para Kiev: se quiser retomar Kherson, terá de bombardeá-la de forma intensiva. Meramente isolar os russos não sugere que eles sairão de lá. Só que a cidade segue habitada por seus cidadãos: antes da guerra, eram 283 mil almas por lá.

Essa é a limitação tática das armas ocidentais. Elas deram uma capacidade operacional nova para os ucranianos, atingindo depósitos de munição e posições russas a até 70 km de distância, mas são inúteis para ocupar uma cidade exceto que usadas para destruí-la antes. Mesmo a recusa até aqui em explodir de vez a ponte Antonivski ou a outra que fica mais acima no mesmo rio passa por essa lógica.

Há dúvidas também sobre a força do Exército ucraniano para montar uma contraofensiva em solo, dado que recebeu poucos blindados e tanques em comparação com as perdas que teve até aqui. As próximas semanas dirão a real condição da contraofensiva.

Os russos, por sua vez, desde o fim de semana retomaram a pressão sobre a porção remanescente sob controle de Kiev no Donbass, na província de Donetsk. Desde 2014, quando a Crimeia foi anexada em retaliação pela derrubada do governo pró-russo da Ucrânia, a área entrou em guerra civil e estava dividida entre ucranianos e separatistas apoiados por Moscou.

Essas tropas pró-Rússia participam de um ataque contra Adviivka, a linha de frente congelada em Donetsk, junto à capital homônima da província. Segundo publicou no Telegram Igor Girkin, ex-comandante militar da região e hoje crítico da condução da guerra, o assalto direto tem tudo para dar errado.

Avaliação semelhante faz o Instituto para Estudos da Guerra, de Washington. O centro crê que a Rússia só tem força para essa ação e de outra, por ora bem-sucedida, que tomou a usina termelétrica de Vuhleriska, na fronteira entre Donetsk e Lugansk. Com efeito, ali foram empregadas pela primeira vez numa ação de relevo tropa do grupo mercenário russo Wagner, e não tropas regulares.

Seja como for, os russos amplificaram seus ataques aéreos nesta quinta, o que pode ser uma tática diversionista para retirar empenho ucraniano no sul ou prenúncio de uma retomada da campanha mais sustentada. No domingo (24), o chanceler Serguei Lavrov disse com todas as letras que o objetivo, afinal, é derrubar o que chamou de “regime inaceitável” de Volodimir Zelenski.

Da Crimeia, foram lançados mísseis que destruíram uma base militar próxima de Kiev, em Liotij. Segundo Oleksii Gromov, do Estado-Maior ucraniano, houve diversas baixas. Mais significativo ainda, de bases russas na Belarus foram lançados 25 mísseis contra posições na região de Tchernihiv, palco de sangrentas batalhas no começo do conflito.

Gromov avalia a situação em Donetsk como “bastante difícil, mas ainda sob controle”. Os Estados Unidos já prometeram enviar mais sistemas de mísseis Himars (até aqui, são 12 entregues aos ucranianos), e outros países da Otan seguem pingando armamentos aqui e ali para Kiev.

Gorsso modo, a Guerra da Ucrânia pode ser dividida entre uma primeira fase, na qual Putin tentou tomar Kiev no susto com um ataque com múltiplas frentes e pouco foco de poder de fogo. Enfrentou assim resistência ucraniana e fracassou.

Dali o conflito mudou-se para sua origem, o Donbass, onde em abril os russos iniciaram sua nova campanha, essa mais bem-sucedida até aqui, apesar das dúvidas acerca da capacidade de tomada de toda a província de Donetsk. Ainda inconclusa, essa segunda fase é sobreposta pela terceira etapa.

Colaborador

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