8 anos após deslizamento em Mãe Luíza, moradores atingidos têm auxílio reduzido e seguem sem casas reconstruídas em Natal

Buraco aberto na Rua Guanabara, em 2014, foi fechado e a Prefeitura recuperou a área. Apesar disso, moradores que perderam casas ainda aguardam pelo poder público.


Cratera se abriu na rua Guanabara, em Mãe Luíza em 2014 — Foto: Heloísa Guimarães/ Inter TV Cabugi

O deslizamento de terra em Mãe Luíza, zona Leste de Natalocorrido há oito anos segue trazendo consequências negativas aos atingidos pela tragédia. Este ano os proprietários dos imóveis atingidos viram o auxílio financeiro ser reduzido pela metade e seguem aguardando a entrega das novas residências, que ainda não ocorreu.

A via atingida pelo desmoronamento foi reconstruída e uma escadaria erguida onde antes havia o cenário da tragédia. Mas quem perdeu o lar, ainda aguarda o cumprimento de promessas do poder público.

O Residencial Mãe Luíza, que será localizado na Rua João XXIII, uma das principais vias do bairro, ainda não saiu do papel. A obra ainda aguarda andamento dos trâmites legais por parte do executivo, mesmo passados oito anos da tragédia.

“Nem sequer um tijolo foi colocado”, lamenta Vilson Barbosa, fotógrafo afetado pela tragédia. Desempregado, Vilson revela que não acreditava que a entrega dos imóveis fossem atrasar tanto e chama atenção para outras estruturas que foram erguidas com mais pressa.

“Temos escritura, tudo do terreno, mas a prefeitura fez a academia. Quando abriu as tábuas de proteção das construções, já estava a academia feita”, afirmou Barbosa.

A estrutura da academia ao ar livre foi construída no lugar onde estavam as residências atingidas pelo desmoronamento de terra.

De acordo com a Secretaria Municipal de Habitação, Regularização Fundiária e Projetos Estruturantes (Seharpe), a nova gestão encontrou o processo de construção do Residencial Mãe Luíza parado. A pasta afirma ter finalizado a licitação há duas semanas.

“A expectativa é de que, nos próximos dias, a ordem de serviço seja assinada para início dos trabalhos”, afirmou a pasta, em nota enviada ao g1.

Com o deslizamento, 26 imóveis caíram ou foram demolidos pelos órgãos públicos, por oferecerem riscos aos seus ocupantes. Cerca de outros 20 também precisavam de reformas para que os moradores pudessem retornar.

Cratera se abriu na rua Guanabara, em Mãe Luíza em 2014 — Foto: Heloísa Guimarães/ Inter TV Cabugi
Cratera se abriu na rua Guanabara, em Mãe Luíza em 2014 — Foto: Heloísa Guimarães/ Inter TV Cabugi

Auxílio reduzido

Enquanto a obra não é entregue, quem foi afetado pelos deslizamentos teve que lidar com mais um problema. O auxílio financeiro, definido em juízo em pagamento mensal de R$ 1.200, foi reduzido há três meses. Quem depende do benefício reclama que o novo valor de R$ 600, metade do que era pago antes, é insuficiente para o pagamento das despesas básicas.

“Gasto mais de R$ 700 com aluguel, água e luz. Esse valor (de R$ 600), não dá”, afirma Tereza Rocha, de 71 anos.

Apesar da idade, Tereza não se aposentou. Com enfermidades, ela conta que não tem mais idade para trabalhar e que a fonte de renda de sua família, além do auxílio com valor reduzido, é a aposentadoria do marido. “Até medicamento pra mim sai da aposentadoria dele. Graças a Deus ele não tem muita enfermidade. Se não fosse isso, não daria para sobreviver”, revela.

O auxílio tinha sido definido em um salário mínimo em 2014, e vinha sendo reajustado a medida que o salário aumentava. De acordo com a pasta, no final de 2021 foi sancionada a Lei de Benefícios Eventuais, que transferiu a missão de pagar o benefício para a Secretaria Municipal do Trabalho e Assistência Social (Semtas). A mudança, aliada à regulamentação da pasta que passou a ser responsável pelo pagamento, fez com que o benefício fosse fixado num valor correspondente a 50% do que vinha sendo pago anteriormente.

Memória

Apesar do deslizamento ocorrer no dia 14 de junho de 2014, a tragédia começou a partir do dia anterior. Naquela sexta-feira (13), Natal recebia a primeira das quatro partidas que sediaria na Copa do Mundo. Enquanto México e Camarões jogavam na manhã chuvosa, a mesma água que caía do céu fez um terreno desmoronar entre a avenida Sílvio Pedroza, em Areia Preta, e a comunidade em si. Apesar de ninguém ficar ferido, moradores de Mãe Luiza permaneceram em alerta.

No dia seguinte, após o registro de , a estrutura onde as casas foram construídas não aguentou. Antes disso, a Defesa Civil conseguiu retirar moradores de centenas de casas do local. A situação foi descrita por Maria de Carmo Torres, uma das pessoas que perderam a residência naquele dia. Ela descreve as sensações daquele sábado e reforça que não pensava em sua casa, mas sim em salvar sua mãe, que morava na parte inferior da rua Guanabara, via que foi destruída após o deslizamento.

“Quando vi na porta aquela quantidade de água, desci com minha neta, pensando na minha mãe. Quando cheguei lá, a Defesa Civil já estava ‘levando ela’. Quando tentei voltar, já não consegui mais” revela, calculando que a situação se agravou em um intervalo de 30 minutos.

“Foi passar meia hora e a avenida já não existia mais. Só ‘casa caindo’, o chão parecia chocolate, se derretendo… só lama”, pontua.

A mãe de Maria do Carmo, ela mesma e tantos outros tiveram que deixar os imóveis apenas com a roupa do corpo. A cratera se abriu na avenida Guanabara durante a noite, justamente sobre o terreno que tinha cedido no dia anterior. A estimativa do município eram de que 70 toneladas de terra e outros materiais foram levados no deslizamento.

Após o desastre, o município e o governo federal anunciaram investimentos para recuperar a área. A escadaria e obras de macro e microdrenagem na região,foram entregues no final de 2015, junto com a academia ao ar livre. A rua desmoronada também foi reconstruída. Foram investidos cerca de R$ 5,6 milhões nas obras.

Chuva abriu cratera no bairro de Mãe Luíza, na Zona Leste de Natal, em 2014 — Foto: Felipe Gibson/G1
Chuva abriu cratera no bairro de Mãe Luíza, na Zona Leste de Natal, em 2014 — Foto: Felipe Gibson/G1

Colaborador

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